Temporal
Bruna Fetter é professora, pesquisadora, curadora e crítica de arte. É Doutora em História, Teoria e Crítica de Arte pelo Instituto de Artes da UFRGS, onde atua como docente e foi pesquisadora visitante na New York University com bolsa Fulbright. Algumas das suas atuações mais reconhecidas são Diretora Cultural da Fundação Vera Chaves Barcellos, coordenadora da equipe de produção executiva da 6ª Bienal do Mercosul, conselheira do Instituto Yvy Maraey e curadora de mostras de destaque como Amazona, ou a dança das resistências (MACRS, 2024) e Haverá Consequências (FVCB, 2022). Coordenadora do projeto de extensão Nervo Crítico, é membro da AICA, ABCA e ANPAP. É coautora do livro As novas regras do jogo: sistema da arte no Brasil (Zouk, 2014) e de publicações pela FUNARTE, Circuito e Panorama Crítico, tendo sido agraciada com o Prêmio Gilda de Mello e Souza (ABCA) e o Destaque em Curadoria Institucional no XVIII Prêmio Açorianos de Artes Plásticas em 2025.
Usualmente com a duração de algumas dezenas de minutos, um temporal é um fenômeno atmosférico marcado por
chuva forte, vendavais, trovoadas, relâmpagos e raios. Como chuva que cai e molha o solo, por vezes nutrindo-o, outras
alagando-o, a pintura de Frantz é alimentada pela tinta que escorre e entranha a tela. Inundação pictórica. Em Temporal,
a partir de uma palheta de cores reduzida, céus de tormenta preto e branco preenchem o espaço expositivo e silenciam o olhar.
Entendendo o temporal também como uma ideia relativa à temporalidade de objetos e conceitos, a mostra aborda
a poética do artista para além de uma relação que opõe o transitório à permanência. Ao entender o tempo como uma dimensão
a mais a compor a obra, o artista o incorpora em íntimo diálogo com o espaço e seus limites. Nas palavras de Deleuze: “O
tempo já não se reporta ao movimento que ele mede, mas o movimento ao tempo que o condiciona. Por isso o movimento
já não é uma determinação do objeto, porém a descrição de um espaço, espaço do qual devemos fazer abstração a fim de
descobrir a tempo como condição do ato ”(1).
É a partir de tais relações e de ligações afetivas que o trabalho do artista toma forma. Contando com a generosidade de
colegas, Frantz forra paredes e pisos de ateliês que, cobertos, permanecem. Camadas e camadas de tinta vão se sedimentando
numa lenta construção que registra processos de outros artistas. Aceitando o passar do tempo de forma displicente, esses
espaços recebem respingos de tintas, massas de distintas cores, marcas de latas, pegadas de quem por ali passa, acúmulo
de pó. São vestígio e descarte que, posteriormente, sob o enquadramento do artista, viram obra.
Dessa maneira, pinturas se materializam. Pinturas que rompem a bidimensionalidade, podendo ser pisadas,
tocadas, manipuladas. Pinturas que advém de distintos endereços, questionando a noção de autoria e dissolvendo a aura da obra
de arte. Pinturas que são documento e coleção; e que, através de telas, potes e livros, abrigam o processo e poética de Frantz.
Reunindo mais de 25 anos de produção artística, Temporal extrapola esses distintos momentos. Ao colocar o piso do
ateliê do artista do inicio dos anos 90 em diálogo com potes finalizados há cerca de apenas dois meses, a mostra busca
desvelar como a ação do artista se desdobra em temporalidades mundanas e, do espaço abstrato, constrói variados cenários,
potentes em seus fragmentos únicos. Pingos e poças, ventos e trovões. Para além de breves momentos de desague, atemporal.
(1) DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica / Gilles Deleuze; tradução de Peter Pál Pelbart. – São Paulo: Editora 34, 2011 (2a edição), 208 p.




