André Severo (Porto Alegre, 1974) é artista, curador, produtor e diretor artístico. Possui graduação e mestrado em poéticas visuais pelo Instituto de Artes da UFRGS. Dentre seus principais trabalhos, destaca-se como co-curador da representação brasileira na 55ª Bienal de Veneza (Dentro/fora, 2013), curador associado da XXX Bienal de São Paulo (A Iminência das Poéticas, 2012), diretor artístico da 11ª Bienal do Mercosul (2018) — além de produtor executivo das 8ª e 9ª edições —, co-idealizador do Projeto Areal (iniciado em 2000) e atual coordenador geral do Farol Santander Porto Alegre. Autor e organizador de publicações sobre arte, recebeu prêmios de prestígio como o Prêmio Marcantonio Vilaça (2013), o Prêmio Sérgio Milliet (ABCA), o Programa Petrobrás Artes Visuais (2001) e diversas premiações pela Funarte (entre elas o Marc Ferrez de Fotografia e o Conexões Artes Visuais).

pintura pensamento é a primeira exposição de Frantz na qual ocorreu algum tipo de identificação oficial da origem das lonas de forramento de atêlie, no caso provenientes do espaço de Manoel Veiga. Assim, gerando um aprofundamento mútuo, não pela discordância ou concordância, mas pela igualdade de origem. O texto de André Severo foi utilizado como texto de parede nessa exposição.
A contingência do sensível: difusão, gravidade, capilaridade, curto-circuito, choque de significados, fluxos de cor – corpo, espaço, tempo. O sensível está na essência daquilo o que somos. Como seres que captam coisas através dos sentidos (entes que espelham outros entes) nossas projeções ajudam a desvendar os horizontes da natureza que partilhamos. O trabalho do artista tem início, justamente, na exploração destes horizontes – diligência, exame, isolamento, acaso, contraventamentos, desvios, retomadas, direcionamentos indiretos. Tudo pode começar desambiciosamente, mas a evolução natural do processo se dará de modo meticuloso, com arrumações, rearranjos, suscetibilidades, escrúpulos e ideações que serão examinadas de muito perto; às vezes até a beira da improdutividade – aciesia processual, esterilidade ritual. O início do estado criativo é, muitas vezes, uma luta contra a estagnação – o decesso precede a germinação e o grão da obra deve ser cuidadosamente semeado. O trabalho começa asfixiado, na sensação de estranheza do corpo, do tempo, do espaço: algo está faltando. Mas há insistência; e a obra prossegue em um processo orgânico até que alguma coisa comece a se desenvolver: há então germinação, amadurecimento no escuro, brotação, nascimento e, com sorte, floração. Algo se eleva, uma substância é expelida, projeção; vem uma embriaguez, introjeção: ouve-se na cabeça (depois sente-se no corpo) uma nova linguagem que abafa todas as outras línguas. Ascensão e rompimento: alguma coisa foi inaugurada; a arquitetura da obra se liberta e quando sua estrutura finalmente se revela, é possível perceber que algo de ignoto esteve agindo desde os primeiros movimentos, algo de incógnito que, em germe, já conduzia o pensamento nas primeiras dúvidas, nos primeiros assombros, nas mais pobres das notas iniciais de intuição criativa. Intenção de meio e de fim, desatrelamento, repartição: a obra, agora autônoma, se desprende do artista e exige mais comparticipação – ciente, ela mesma, de que o momento de sua apresentação é uma das instâncias possíveis de compartilhamento do sensível. Interrogação, fragmentação, processamento, solicitação: o sensível é tão necessário para nosso relacionamento com o que nos circunda, que sem ele não poderíamos nem mesmo ser pensados como existentes. Há algo em comum em qualquer obra, em qualquer imagem, em qualquer poema que porventura nos alcance – algo que, uma vez constatado, expõe as limitações do effort que fazemos para estabelecer o que chamamos de racionalidade e revela as lacunas estruturais de uma tentativa de entendimento da realidade baseada majoritariamente nos códigos da comunicação linguística. Tendemos para o sensível. Procuramos um estado surgido da imagem, da obra; uma força germinativa fora da língua que nos capacite a circular pela topologia de continuidade intercambiável que une o fim e o início – dimensão da irredutibilidade da sensibilidade em relação ao lugar da percepção. Mas, o sensível existe, antes de tudo, fora de nós, de nossa consciência; a obra está no espaço infinito no qual se localizam e se movem os astros, na atmosfera que envolve nosso planeta, na extensão das faces de nossos corpos, na área reflexiva de nossos espelhos. Em última instância, o relacionamento do humano com o sensível se dá a posteriori. Nos nutrimos de imagens, de palavras, de ideias; projetamos conceitos simbólicos e experiências sensoriais, mas a gênese do sensível não tem base nos fenômenos mentais, emocionais ou da psique – excipiente de toda experiência imaginativa, cognitiva ou psicológica, a arte traz conceitos simbólicos simultaneamente consistentes e parafactuais. E o que o sensível reverbera, em última instância, é algo que se gera fora de nós, mas que – apesar de não ter natureza necessariamente relacionada com a parte imaterial que também nos conforma – é capaz de oferecer informação e dar contornos anímicos para nossas determinações, anseios, desejos, paixões, inteligências e perceptividades. Imagem velada e desvelada, movimento suspenso e restituído: não há o que obstar; é dos estímulos sensíveis e da imaginação que parte o impulso criativo – e a criatividade está para a sensibilidade como a linguagem está para a razão analítica. Imagem e palavra, inteligibilidade e sensibilidade se opõem entre duas transcendências e abrem uma passagem – e nossa consciência do instante quiçá nada mais seja do que a percepção fugaz da inserção, no tempo, desta passagem. Duração que não tem começo e nem cessação, nascimento sem genitor: as imagens estão ligadas à elaboração poética e à presença ou intervenção do subjetivo; suas resenhas são simbólicas e precisam ser captadas pela sensibilidade; suas expressões não são explicativas, mas umbráteis e metafóricas; suas personificações, assim como as do mito, não são alegóricas, mas sim tautegóricas – não referem a algo diferente delas mesmas e somente expressam o que elas em verdade são. Em definitivo, o sensível evidencia nossas origens – mas não se configura como tentativa de fazer qualquer juízo ou interpretação da existência. Como um manancial de expressão daquilo o que somos, a obra de arte é a possibilidade mais palpável que temos de obter alguma espécie de manifestação da condição original que nos anima. Mas, para experienciar tal eventualidade, é preciso ir dentro de sua matéria, se afogar no sensível e compreender a obra por dentro – sem esquecer que os pensamentos, por vezes, nascem do toque; e que a habilidade do artista contém, invariavelmente, um aspecto espiritual. De fato, quando trabalha a matéria, o artista libera seu pensamento; o espírito não é o oposto do corpo, mas pode se libertar dele e se tornar volátil. Há uma conexão invisível, uma passagem não aparente entre as coisas e alguma identidade não discernível. A imagem não possui identidade, não representa coisa alguma, não figura ninguém em lugar nenhum; e sua instauração não semelha ser mais do que a emoção da persistência da iminência – que é, também, uma possibilidade de suspensão momentânea da realidade. Absorção das contradições, nução do vazio eviterno, consentimento à direção impassível do tempo: o que a obra de arte testemunha é a queda, é a atmosfera rarefeita em volta de nós, é a memória que esquecemos ou que distorcemos, é a palavra que não encontramos, é a voz que abafamos, é o olhar que desviamos. Nada mais distante, nada mais próximo; e também nada a se oferecer embargo pois, ao final, somente o que o sensível parece ter o condão de nos revelar é que nossa existência – com sua historicidade, com sua imanência temporal e finita – paradoxalmente se projeta numa transcendência que nos ultrapassa. A arte nos tira de nós ao mesmo tempo em que faz com que nos encontremos; e esta saída de si para voltar a si – intercâmbio entre o dentro e o fora, entre o próximo e o distante, entre o agora e o outrora – é o estado de deriva em que resguardamos nossa intuição: a contingência do sensível.



